Sobre o alto da montanha: o que eu gostaria de ter escutado no primeiro dia da faculdade
10/03/2026 | 4 min de leitura
Seção: Reflexões sobre medicina
Seção: Reflexões sobre medicina
A vida de estudante de medicina costuma começar como a chegada ao topo de uma montanha. Depois de anos de preparação para o vestibular de medicina, finalmente entramos na faculdade com a sensação de que alcançamos o ponto mais alto da jornada.
Em geral, fomos um aluno dedicado desde a infância e tivemos reforços positivos atrelados a sua performance acadêmica. Por muitos anos a nossa autoestima e identidade é muito marcada pelo nosso intelecto. Nós levamos muito a sério a nossa formação, nos doamos mesmo antes de entrar na faculdade e quando finalmente chegamos aqui, queremos abraçar o mundo e viver a medicina de maneira intensa.
Existe um mundo cheio de atividades interessantes dentro do curso e vamos tocando muitos projetos inspiradores que nos motivam e vão além da grade curricular, pois muitas vezes elas nos frustram. Quando falhamos na universidade, como notas indesejadas que nunca são altas o suficiente, botamos em xeque nosso valor. Encaramos as adversidades acadêmicas de maneira muito rigorosa, como se fosse nossa profissão. A medicina vai se tornando parte da identidade, e isso, aos poucos, aumenta ao longo dos anos.
Passamos mais tempo com colegas de turma do que com a família. E quando estamos com a família, só falamos da medicina. Procurem novos hobbies e continuem a participar dos almoços de domingo (os que têm esse privilégio). Marquem esse primeiro ano na memória, pois são momentos como esse que a gente se agarra quando as dificuldades chegam. E elas vão chegar, provavelmente após a primeira prova de Anatomia. A gente vai se esquecendo que o vestibular passou, que a nossa vaga já foi conquistada, que não precisamos mais vencer ninguém.
Celebrar é preciso e é algo que na faculdade aprendemos a fazer. Festas a cada pequeno passo é uma caricatura do estudante de medicina. No final do primeiro ano tem a festa do 1/6, afinal o primeiro já foi e falta mais 5. Depois tem o meio-médico, antes do 5º tem a festa do pré-internado e então tem a festa dos 100 dias para formar. Então tem a formatura, que já são vários dias. São muitas celebrações pois o caminho no curso é longo, e cheio de pedras, assim como é a vida.
Agora que eu passei por todas elas, fico orgulhosa por tê-las aproveitado. Lembro de cada uma. A primeira foi a mais icônica, deixando fofocas interessantíssimas. E como foi especial cada um dos dias da semana de formatura. A missa, no meu caso, foi no dia do meu aniversário - bem simbólico eu diria. Depois a colação, meu dia preferido, sem dúvida. Choro mais em colações de grau do que em casamentos, só quem passou por anos de pré-vestibular sabe como é árdua a caminhada.
Proponho que a partir dessa leitura, ainda mais celebrações, as que eu julgo as mais importantes, as mais singelas, as celebrações do caminho, do dia a dia. Assim, ficamos mais presentes, não focamos só no futuro que nos parece muito distante. Celebrem o sonho que é poder estudar no curso que se deseja, pois na correria vamos esquecendo disso. Celebrem o caminho, não só a chegada, o diploma.
Eu tinha um professor de química no cursinho que falava que o vestibular era uma árdua trilha de montanha, mas chegando no topo, na aprovação e na matrícula, seria a vista mais linda da vida, que tudo valeria a pena. É verdade, é muito lindo, e vocês estão aí para apreciar essa vista. Só que não ficarão para sempre nela e até chegar o próximo horizonte vai demorar um pouco.
Podemos registrar e curtir o caminho, ele fica muito mais leve quando estamos perto de quem a gente ama.
* Texto adaptado do discurso da acadêmica Luise na Cerimônia do Jaleco da XXVI de Medicina da Unioeste Cascavel (2023).
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A Dra. Luise Moura é médica formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Escreve sobre educação em saúde e cuidado médico.
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