Uma médica e a fragilidade da vida
27/04/2026 | 3 min de leitura
Seção: Reflexões sobre medicina
Esses dias eu dei o meu primeiro diagnóstico de câncer de mama para uma família como médica. Como foi difícil. A paciente estava “bem”, como a paciente mesma dizia, “só” tinha o nódulo na mama, que para ela se não doía estava tudo bem. Depois do primeiro exame de imagem e da carta de encaminhamento ao tratamento adequado, ficou o silêncio.
Eu sei desde sempre que estava escolhendo a profissão das más notícias. Busquei estudar protocolos, jeitos empáticos e acolhedores de comunicação, mas na hora H, nada disso tirava o peso de ser o elo entre a má notícia e aquela família aflita. E se fosse comigo? E quando tinha sido com a minha família? Como minha mãe recebeu a notícia de que o AVC que ela teve trataria sequelas incuráveis? Como minha avó recebeu a notícia de que teria que usar uma sonda para se alimentar e que não ceiaria como antes no Natal? Como meu avô recebeu a notícia que o câncer de bexiga, que tinham ficado 1 ano suspeitando até o diagnóstico definitivo, no fim era um tumor benigno cuja demora do atendimento fez ele descompensar o coração e o rim?
Eu já tinha dado más notícias como estudante. Notícias sobre aborto, sobre a possibilidade de doenças incuráveis, entre outras coisas. Sempre busquei acompanhar os residentes e preceptores nas conversas com as famílias, observando e anotando no coração como deixar esse momento menos pior. Mesmo assim, como é diferente você não ter a retaguarda de outros médicos para compartilhar esse fardo.
Talvez eu seja reflexiva demais em coisas cotidianas da minha profissão. Afinal, médico dá más notícias. Alguém haveria de ter essa responsabilidade. Em algumas especialidades, mais que em outras. Voltar para a minha cidade natal, cuja memória foi feita por más notícias como acompanhante, filha e neta de pacientes está ampliando minhas reflexões.
Durante minha formação, eu estava do outro lado do estado estudando algo que era meu sonho, e ainda é. Num hospital novo, mas que foi se tornando a minha segunda casa. Eu morava a uma quadra de distância, sempre que podia eu ficava lá, sem esforço, era um local de acolhimento para mim. Sempre tinha coisa para fazer, para aprender, para viver. Uma verdadeira imersão. Costumava me incomodar com as perguntas de conhecidos sobre o que estava fazendo ali, que era para eu aproveitar meu fim de semana em casa, que era para eu descansar. No fim era um descanso para mim. Era um jeito de eu viver o meu sonho de ser médica, de poder ter autonomia naquilo em que eu podia escolher me aprofundar, dentre tantos setores no hospital. Eu sabia que era uma fase única e eu estava lá para isso.
Agora, longe do meu hospital-escola, está sendo bem diferente, pois me remete mais a minha experiência pessoal antes da graduação. Pensei que iria adorar trabalhar em hospital, agora já não sei. A cada dia eu me torno mais médica, apesar de já ter o número de registro. E nem só de cura vive a medicina. Já havia escutado que ser estudante de medicina era muito diferente de ser médico. Existem frustrações e reflexões não faladas numa profissão tão concorrida para entrar. Acho que viver no automático ajuda, pena (ou não) que eu prefiro viver no manual.
Tags: luto · cuidado · consulta médica · medicina narrativa · relação médico-paciente · memória · humanização da medicina
A Dra. Luise Moura é médica formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Escreve sobre educação em saúde e cuidado médico.
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