Veja como a experiência é algo humano. Eu com meus 27 anos e minhas três estrelinhas e ela com seus 50 e poucos com sua primeira estrela a brilhar no céu recentemente. Fiquei duvidando de mim, como eu poderia ser um afago momentâneo para ela, algo que eu queria ter recebido, e de certa forma recebi nos meus lutos. Ambas tínhamos cuidado antes de ter perdido alguém amado. Cuidar de alguém antes de falecer é uma doação tão esperançosamente intensa que te domina e te define por um tempo, quando esse alguém a ser cuidado não está mais lá, só te resta a intensidade sem razão de ser.
Estou de luto até hoje, mesmo quase 7 anos depois. Minha mãe, meu avô materno e minha avó materno se foram num intervalo de 5 anos. Foram anos de altos e baixos, lutos somado, medo dos lutos futuros. Cada um te atravessa de um jeito. Eu considerava por um tempo que a última perda que eu tive foi mais branda por que eu estava longe e atarefada para pensar sobre. Foi só eu retornar para a cidade que foi como uma chuva de verão, intensa e rápida. Doeu e ainda dói, mas já queria ir para o passo de matar a saudade com algo que lembrava a pessoa amada.
Minha mãe amava folhagens e decorações de casa, não tem não como lembrar ela, não sentir que estou um pouco com ela, quando eu entro em contato com esse mundo. Meu avô, mais sensato, responsável com dinheiro e com a sua saúde, dá até gosto comer frutas e cuidar do meu dinheiro, pois eu sei que o faria feliz. Continuar o legado dele, um jeito, uma mania dele que for, é um gesto singelo, de deixar ele aqui por mais tempo. E recentemente descobri que a religião católica me lembra a minha avó, que me ensinou a rezar, que tinha uma gruta da Nossa Senhora Aparecida e que me levava na igreja na praia. Ela também gostava de flores, estão esperando o jeito e a vontade bater para acessar esse mundo dela. Também de cuidar das unhas, ela adorava uma cor de café. Os três não estiveram presencialmente na minha formatura. Minha mãe não viu eu passar no vestibular. Meu avô não viu eu fazer faculdade. Minha avó não viu eu me formar. Não puderam estar lá fisicamente nos dias de comemoração, mas simbolicamente estiveram.
O luto dói, parece que essa dor diminuiu com o tempo, mas ela só hiberna. Por que ela volta às vezes com tudo, quando você menos espera, quando você achava que estava superado. Superação é a ação do dia a dia, não é esquecer, como se fosse uma escada que você ia chegar até o final. E foi esse o efeito que essa meia hora de consulta me causou. Uma oportunidade para refletir o meu próximo luto e poder estar presente para alguém, que está atravessando a margem desse rio pela primeira vez com o dobro da idade que eu tinha da minha primeira vez. Assim como uma grande amiga minha me ajudou e também tinha perdido sua mãe com bem menos que a metade da minha idade. Idade é só um número. Nunca é tempo o suficiente para ficar com as pessoas que a gente ama. Nunca será mais fácil lidar com a falta. Não tem escapatória. A perda vem, mas a memória fica.
Tags: luto · cuidado · consulta médica · medicina narrativa · relação médico-paciente · memória · humanização da medicina
A Dra. Luise Moura é médica formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Escreve sobre educação em saúde e cuidado médico.
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