"A morte é um dia que vale a pena viver": o que mais me marcou
24/05/2026 | 5 min de leitura
Seção: Reflexões sobre medicina
Seção: Reflexões sobre medicina
| Tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos. Tempo, tempo, tempo, tempo.”
— Caetano Veloso, "Oração ao Tempo".
Está aí um tema que sempre me intrigou: o tempo. Ou melhor, a finitude. Desde a noção que as pessoas que eu amava não estariam sempre comigo (fisicamente). Meus sonhos de infância sempre permeavam lutos, desde essa noção consciente. Talvez tenha sido uma forma do meu inconsciente de lidar com esse medo.
Escolhi medicina na adolescência. Medicina era uma profissão que lidava diretamente com perdas. Não tinha como fugir. Aí não, cancela. Cancela medicina, já basta as dores que a vida nos dá, eu que não vou ficar procurando dor por aí.
Então, vamos para outra área. Direito, informática, engenharia, sei lá, algo que não lide com perdas. Foi uma fase. Uma curta fase. Como podem perceber eu mudei de ideia. Não lembro exatamente quando eu voltei a escolher medicina. Foram várias conversas internas que chegavam a mim nesse período, mesmo eu tentando me distrair. Sei que elas aumentaram após eu me frustrar com informática e exatas. Quando eu era uma das únicas que gostava de biológicas no meu curso técnico do ensino médio. Quando não fazia sentido eu fugir.
E depois que descobri que minha mãe tinha um problema irreversível no pulmão, enfisema pulmonar, que a daria contados anos de vida, eu desmoronei. Fui atingida antes de nem escolher uma graduação. Mesmo que eu fugisse das perdas da medicina, as perdas da vidas me encontraram. Delas não tinha como fugir. Não tem como fugir.
Então vamos lá seguir uma carreira que eu admirava tanto, apesar das perdas. Em 2017, numa aula de literatura do cursinho, meu professor de literatura mostrou um vídeo da médica geriatra Ana Cláudia Quintana Arantes. Não lembro exatamente o tema daquele dia, mas as aulas dele eram verdadeiras aulas de vida. Com ele eu aprendi que a arte realmente conversa com o nosso eu mais íntimo, aquele que por vezes nos esforçamos para esconder. Então, essa médica falava sobre lutos e perdas e foi um alento para a alma.
Tempos depois ela me retornou em 2019, com seu livro "A morte é um dia que vale a pena viver”. Uma preciosidade de livro.
Em 2019 também eu comecei a fazer algo que minha mãe fazia. Eu comecei a anotar frases que eu gostava num caderno bem lindo. Ela tinha lindos cadernos de frases e poesias. Fazê-los era um jeito de me aproximar dela.
Então hoje, em maio de 2026, eu revisitei esse meu primeiro caderno de frases, algo que há tempos não fazia. É muito bom poder nos revisitar. Aquelas páginas expressam o jeito que eu tentava ser no mundo, apesar do luto.
Quero registrar aqui também alguns trechos dos que eu tinha anotado naquela época desse precioso livro:
Foto do livro "A morte é um dia que vale a pena viver". Fonte
"Para morrer não tem ensaio.”
"A morte é um espaço onde as palavras não chegam.”
"Você se apega a tudo, mas não é possível segurar o tempo.”
"Fique tranquila: a morte é um laboratório incrível onde funciona um acelerador nuclear de enfrentamento.”
"O problema mais difícil não é a morte, é esperar por ela.”
"Para muitas pessoas, a vida é como estar no metrô com os olhos vendados: elas entram em um lugar que não sabem direito onde fica, não sabem onde vão descer e não estão presentes! Simplesmente estão dentro. Então a porta se abre e alguém pode chamar: ‘Ana Cláudia, vamos descer!’ Já?.”
"O que separa o nascimento da morte é o tempo. Vida é o que fazemos dentro desse tempo; é a nossa experiência.˜
"Nossa cultura é faltante. O tempo acaba, mas a maioria não percebe que, quando olha o relógio repetidas vezes esperando o fim do dia, na verdade estão torcendo para que o tempo passe mais rápido e sua morte se aproxime mais rápido. Mas o tempo passa no tempo dele, indiferente à torcida para apressar ou retardar sua velocidade.”
"Pressupor que precisamos nos preparar para a morte não ajuda a evitar esse encontro. Mas ajuda a evitar o temor desse encontro e transformá-lo em respeito.”
˜Enquanto as pessoas não olharem para a morte com a honestidade de perguntar a ela o que há de mais importante sobre a vida, ninguém terá a chance de saber a resposta.˜
"Pessoas que não gostam de falar ou pensar sobre a morte são como crianças brincando de esconde-esconde numa sala sem móveis.”
"O ser humano é a única espécie na Terra definida por um verbo. (…) Nascemos animais, mamíferos pensantes e conscientes, , mas só nos tornamos humanos à medida que aprendemos a ser humanos.”
"As lágrimas são feitas de água salgada como o mar. Chorar essa emoção é como tomar banho de mar de dentro para fora.”
"Os médicos não aprendem na faculdade a diferença de parada cardíaca a morrer.”
"O que tentam ensinar na faculdade é que bons médicos têm de fugir da morte, o trabalho do médico deveria ser o de promover a saúde. Mas atuamos na base do medo: você vai morrer!. Deve ser: você vai viver melhor.”
"Cada perda existencial (…) busca pelo menos 3 padrões de sentido esquecidos. O primeiro diz respeito ao perdão, ao outro e a si. O segundo é saber que o que foi vivido de bom naquela realidade não será esquecido. O terceiro é a certeza de que fizemos a diferença (…), deixando um legado, uma marca que transformou aquela pessoa (…).”
"A melhor forma de continuarmos vivos, apesar dessas mortes que vão acontecendo ao longo da vida, é estar presente nelas. (…) É entrega total à experiência que permite o desapego”.
"A dor do luto é proporcional à intensidade do amor vivido na relação que foi rompida pela morte, mas também é por meio desse amor que conseguiremos nos reconstruir.˜
"Tudo pode morrer, exceto o Amor. Só o Amor merece a imortalidade dentro de nós.”
˜Quando morre uma pessoa amada e importante, é como se fôssemos levados até a entrada de uma caverna. No dia da morte, entramos numa caverna, e a saída não é pela mesma abertura por onde entramos, pois não encontramos a vida que tínhamos antes.˜
Não sei você, mas só de reescrever essas frases me deu vontade de reler o livro todo!
Vamos conversar sobre!
Sobre a autora dessa publicação
A Dra. Luise Moura é médica formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Escreve sobre educação em saúde e cuidado médico.
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